Não sabemos exatamente o que está acontecendo nesta eleição.
A batalha está acontecendo nas igrejas, grupos do Zap, e pessoalmente nas periferias. Temos que retomar nosso lugar como sociedade antes que uma igreja o faça e torne a política um meio para seus fins.

No passado, era uma enxurrada de pessoas na sua timeline se posicionando. Nesta eleição, silêncio.
Além do silêncio da mídia convencional sobre o campeão da maracutaia de rachadinha, loja de chocolates para lavar dinheiro, conexões com Bacellar, TH Joias, CV, milícia, assassinos de Marielle Franco, escândalo do INSS... também temos uma tentativa pobre das concessões públicas de televisão de colocar Lulinha e sua relação com uma lobista no centro do escândalo.
Mas, de certa forma, já estamos acostumados. O que mudou então?
Igrejas, pastores e grupos do Zap ou sabe lá o que acontece no Discord.
Não são poucos os relatos de igrejas e pastores pressionando para que o voto seja no “ungido” Flávio. Também vi o relato do pastor Otoni de Paula, ex-bolsonarista que denuncia hoje as falcatruas, dizendo que perdeu metade de seus fiéis por criticar o bolsonarismo. Há um culto, nada oculto, tomando conta da República. Eu, que fui criado no catolicismo, não deixo de pensar no anticristo e estamos perto do apocalipse.
Não há espaço para discutir nem com os mais religiosos dentro das famílias o que está acontecendo. Quem votou em Bolsonaro e hoje tem vergonha diz que não vota mais; quem segue iludido não votará em Lula no segundo turno.
Conversei com um pedreiro, segundo grau completo, inteligente, que no momento parece buscar uma terceira via. Mas não pode votar em Lula, segundo ele, por causa da religião, família e drogas.
A direita, há anos, descobriu que se travestir de carneirinho, família, antiaborto e antidrogas valia mais do que qualquer escândalo de banco ou INSS.
Minha humilde opinião é que, neste momento, há um feudo digital conectado a feudos religiosos, manipulando informações e gerindo milhares de votos por motivos válidos, mas através de falácias e estelionato intelectual e religioso, decidindo uma eleição que devia ter sido ganha em primeiro turno pela esperança de um país melhor.
Talvez seja justamente isso que tenha mudado, novamente: não deixamos de discutir política. Apenas mudamos o lugar onde a política acontece. Ela saiu das grandes conversas públicas e entrou em pequenos feudos digitais, igrejas, mensagens privadas e está mais individualista do que nunca. Um efeito da polarização. O ódio disseminado nos últimos anos nos impede de conversar.
E talvez o mais assustador seja isso. Não sabemos mais exatamente quem está formando a opinião de quem, quais informações estão chegando a cada eleitor ou quantas decisões estão sendo tomadas a partir de fatos, crenças, medo ou simplesmente daquilo que alguém em quem confiamos disse.
Esta eleição é a mais perigosa dos últimos anos, em que o individualismo das redes sociais foi superado pelo medo e pelo individualismo do WhatsApp e discord.
