Paraguai Aceita Receber Deportados de "Países Terceiros" dos EUA
Enquanto a América Latina luta para encontrar saídas para os problemas geopolíticos, países como Argentina e Paraguai vão na contramão absorvendo "problemas" de EUA e Israel.

ASSUNÇÃO – O governo do Paraguai anunciou esta terça-feira que começará a receber migrantes de outras nacionalidades deportados dos Estados Unidos, tornando-se o mais recente aliado de Washington na polifacetada estratégia de "países terceiros" da administração de Donald Trump. O primeiro grupo, composto por 25 cidadãos de língua espanhola, deverá aterrar em solo paraguaio já na próxima quinta-feira.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Paraguai defendeu a medida como uma decisão soberana e estruturada. Em comunicado oficial, a chancelaria afirmou que "cada caso foi avaliado individualmente, em pleno respeito pela soberania nacional, pelas leis de imigração e pelo direito internacional".
Cooperação e Segurança
A iniciativa faz parte de um esforço mais amplo de Washington para externalizar o controlo migratório, oferecendo incentivos financeiros a países que aceitem indivíduos que não são seus nacionais, mas que foram detidos na fronteira norte-americana.
Robert Alter, oficial da Embaixada dos EUA no Paraguai, elogiou a parceria, descrevendo-a como um reflexo dos laços estreitos entre as duas nações. Segundo Alter, a medida visa a eficiência administrativa e a segurança: "Estes migrantes não têm pedidos de asilo pendentes nos Estados Unidos", sublinhou. O diplomata acrescentou ainda que "a intenção desta colaboração é facilitar o regresso seguro e ordenado destes indivíduos aos seus países de origem".
No entanto, grupos de defesa dos direitos humanos alertam para o facto de estes acordos poderem estar a ser usados como uma ferramenta de intimidação, enviando migrantes para nações com as quais não possuem qualquer vínculo familiar ou cultural.
O Impacto na Região
A decisão do Paraguai de abrir as suas portas a deportados de países terceiros não é apenas um acordo bilateral; é um sinal de mudança profunda na dinâmica da América do Sul.
1. O Precedente no Cone Sul Até agora, os acordos de "país terceiro seguro" ou esquemas de acolhimento de deportados estavam concentrados na América Central (como El Salvador e Costa Rica). A entrada do Paraguai neste mapa leva a política externa de imigração dos EUA diretamente para o coração da América do Sul. Isto estabelece um precedente: se o Paraguai, em troca de cooperação económica ou diplomática, aceita o ónus migratório de Washington, outros países da região poderão sentir-se pressionados a seguir o mesmo caminho.
2. A "Externalização" das Fronteiras O impacto regional é, antes de tudo, humanitário. Estamos a ver a transformação de países sul-americanos em "salas de espera" ou centros de triagem para os EUA. Isso gera uma pressão adicional nos sistemas de assistência social e segurança paraguaios, que agora terão de gerir populações em trânsito com as quais não têm ligação histórica.
3. Fragmentação da Unidade Latino-Americana Enquanto blocos como o Mercosul tentam historicamente facilitar a livre circulação de pessoas, estes acordos bilaterais com os EUA criam clivagens. O Paraguai alinha-se estreitamente com a agenda de "deportação em massa" de Trump, o que pode gerar tensões com vizinhos como o Brasil e a Argentina, caso o fluxo de migrantes "em trânsito" acabe por transbordar as fronteiras porosas da região.
Argentina para os Israelenses: Milei concordou em receber 300 mil imigrantes Israelenses na Patagônia.
Em suma: O Paraguai ganha pontos diplomáticos com a Casa Branca, mas a região ganha um novo desafio: a normalização de um modelo onde a soberania migratória é negociada em troca de apoio político e financeiro, muitas vezes à custa da proteção de indivíduos vulneráveis que se veem lançados num país desconhecido.
