Anúncios pagos no LinkedIn colocam executivos e empresas no centro de debate sobre publicidade política nas eleições de 2026
Biblioteca de Anúncios do LinkedIn mostra publicações de executivos com críticas ao governo Lula que receberam distribuição paga durante setembro. Em um dos casos, a própria plataforma identifica a empresa como responsável pelo pagamento.

Durante setembro de 2026, em meio à campanha eleitoral, publicações de profissionais ligados ao mercado financeiro com críticas à gestão do governo Lula receberam distribuição paga no LinkedIn.
Os conteúdos foram identificados pelo Notícias Latinas na Biblioteca de Anúncios do LinkedIn, ferramenta da própria plataforma que permite consultar publicidade veiculada na rede e verificar informações sobre anunciantes e responsáveis pelo pagamento.
O período é relevante porque a propaganda eleitoral nas Eleições Gerais de 2026 está autorizada desde 16 de agosto, inclusive na internet. O calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também prevê regras específicas para a circulação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet.
A legislação, entretanto, faz uma distinção importante: a publicação de uma opinião política por uma pessoa é diferente da contratação de publicidade para ampliar a distribuição de um conteúdo de natureza eleitoral.
É justamente nessa fronteira que os anúncios identificados pelo Notícias Latinas levantam questionamentos.
Conteúdo patrocinado pela AZ Quest
Um dos casos envolve Walter Maciel, identificado no LinkedIn como CEO da AZ Quest.
Em um vídeo patrocinado, o conteúdo aparece com o título:
“O QUANTO LULA MENTIU? PARTE #2”
A publicação apresenta críticas e questionamentos relacionados à atuação do governo Lula. Na Biblioteca de Anúncios, o LinkedIn identifica AZ Quest Investimentos como anunciante e informa que o conteúdo foi pago pela empresa.
Ver o anúncio de Walter Maciel na Biblioteca de Anúncios do LinkedIn

O registro é relevante porque demonstra que o conteúdo não ficou restrito à distribuição orgânica do perfil. Houve contratação de publicidade para ampliar sua circulação na plataforma.
Isso, por si só, não permite concluir que houve uma infração eleitoral. Para chegar a essa conclusão seria necessário examinar, entre outros elementos, a natureza do conteúdo, o objetivo da campanha, o período de veiculação, quem contratou o anúncio e a eventual relação da publicação com uma candidatura, partido ou disputa eleitoral.
Questionamentos sobre política fiscal
Outro anúncio identificado pela reportagem é de Ricardo Gallo, apresentado pelo LinkedIn como sócio da Ethica Services.
Na publicação, Gallo questiona aspectos das perspectivas econômicas e fiscais do país. Entre os temas abordados estão o crescimento das despesas primárias, o resultado primário, a arrecadação, a carga tributária, os juros e a trajetória da dívida pública.
A publicação aparece na Biblioteca de Anúncios como “Single Image Ad”. O LinkedIn identifica Ethica como anunciante e informa que o conteúdo foi pago pela empresa.
Ver o anúncio de Ricardo Gallo na Biblioteca de Anúncios do LinkedIn

O conteúdo tem foco econômico e fiscal, mas foi publicado e promovido durante o período eleitoral. Por isso, sua classificação jurídica depende não apenas do tema abordado, mas também do conteúdo efetivamente divulgado e de sua finalidade.
O que diz a legislação eleitoral
A legislação brasileira não proíbe uma pessoa de criticar o governo ou expressar opiniões políticas na internet.
A própria Resolução TSE nº 23.610/2019 estabelece que a livre manifestação do pensamento de pessoa eleitora na internet somente pode sofrer limitações nas hipóteses previstas pela legislação, como ofensa à honra ou imagem de candidatas, candidatos, partidos, federações ou coligações, ou divulgação de fatos sabidamente inverídicos.
A questão muda quando há contratação de publicidade ou impulsionamento.
Pelas regras do TSE, a propaganda eleitoral paga na internet é vedada, salvo o impulsionamento de conteúdos dentro das condições previstas na legislação. A contratação é restrita a partidos políticos, federações, coligações, candidatas, candidatos e representantes. A norma também estabelece que o impulsionamento somente pode ser utilizado para promover ou beneficiar candidatura, partido ou federação que o contrate, sendo vedado o uso para propaganda negativa.
A resolução também prevê multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil, ou em valor equivalente ao dobro da quantia despendida quando esse cálculo superar o limite máximo, para determinadas violações relacionadas à propaganda paga e ao impulsionamento.
Há, portanto, uma diferença jurídica relevante entre:
publicar uma crítica ao governo em um perfil pessoal
e
contratar publicidade para ampliar a distribuição dessa publicação.
O segundo caso está sujeito a regras específicas e exige análise do contexto para determinar se a publicidade se enquadra ou não como propaganda eleitoral.
Quem pagou pelo anúncio é uma informação central
Nos anúncios analisados pelo Notícias Latinas, a Biblioteca de Anúncios identifica empresas como responsáveis pela publicidade.
No caso de Walter Maciel, por exemplo, o registro identifica a AZ Quest Investimentos como anunciante e responsável pelo pagamento.
Essa informação não é suficiente, isoladamente, para afirmar que a empresa promoveu propaganda eleitoral irregular ou que houve violação da legislação.
Uma eventual caracterização jurídica dependeria da análise do conteúdo completo, da finalidade da campanha, das datas e duração da veiculação, do público alcançado, do valor investido, de quem efetivamente contratou a publicidade e de eventual vínculo entre a mensagem e uma candidatura ou disputa eleitoral.
A identificação do pagador, entretanto, é relevante porque permite diferenciar uma manifestação orgânica de uma comunicação que recebeu investimento financeiro para alcançar uma audiência maior.
LinkedIn proíbe anúncios políticos
Existe ainda uma segunda camada de regras: a política de publicidade do próprio LinkedIn.
A plataforma informa que anúncios políticos são proibidos, incluindo publicidade que promova ou seja contrária a candidatos, partidos, referendos, leis ou regulamentos específicos ou que tenha como objetivo influenciar o resultado de uma eleição.
A política também afirma especificamente que, no Brasil, o LinkedIn não permite conteúdo político-eleitoral conforme definido pela Resolução TSE nº 23.732/2024.
Isso cria uma questão adicional no caso dos anúncios identificados pela reportagem: como conteúdos que podem apresentar características político-eleitorais foram veiculados como publicidade na plataforma?
O fato de um anúncio aparecer na Biblioteca de Anúncios demonstra que ele foi registrado como publicidade pelo próprio LinkedIn. Não significa, contudo, que a plataforma tenha considerado previamente que o conteúdo era político-eleitoral ou que tenha concluído que ele estava em conformidade com suas regras.
Também não permite afirmar, por si só, que houve infração à legislação brasileira.
Essa conclusão dependeria da análise individual de cada campanha.
TSE confirmou punição por impulsionamento de propaganda negativa
A discussão sobre os limites do impulsionamento não é apenas teórica.
Em 22 de setembro de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou uma multa de R$ 10 mil aplicada a candidatos por impulsionamento de propaganda eleitoral com conteúdo negativo contra um adversário durante a campanha municipal de 2024.
O caso, entretanto, não envolve os anúncios analisados nesta reportagem e ocorreu em uma eleição municipal anterior. Ele serve apenas como exemplo recente de como o TSE tem tratado o uso de impulsionamento em situações que considera abrangidas pelas regras de propaganda eleitoral negativa.
Não é possível aplicar automaticamente a mesma conclusão aos anúncios encontrados no LinkedIn.
Procurados, envolvidos não responderam
Para esclarecer a origem dos anúncios, a finalidade dos investimentos e a relação dos conteúdos com as atividades profissionais dos autores, o Notícias Latinas procurou os envolvidos antes do fechamento desta reportagem.
Na manhã desta quarta-feira, 30 de setembro, a reportagem entrou em contato com Walter Maciel para questionar os conteúdos críticos à gestão do governo, confirmar se as publicações haviam sido patrocinadas no LinkedIn, entender o objetivo do investimento e perguntar qual valor havia sido utilizado para promover os conteúdos.
A reportagem também questionou a relação entre a publicação e seu trabalho na AZ Quest:
“Bom dia Walter, tudo bem? Sou do Portal Notícias Latinas. Estamos fazendo uma matéria sobre as eleições. Vimos que se posicionou em alguns posts de forma crítica ao atual governo. Poderia comentar? Seu post foi patrocinado no LinkedIn? Qual era o intuito? Pode compartilhar conosco o valor investido para patrocinar a campanha?”
E:
“Qual a relação do post com seu trabalho na AZ Quest?”
O LinkedIn também foi procurado para esclarecer a veiculação dos anúncios, as regras aplicáveis a conteúdos político-eleitorais no Brasil e os procedimentos utilizados pela plataforma para analisar esse tipo de publicidade.
Até o fechamento desta matéria, Walter Beraldo, Walter Maciel e o LinkedIn não haviam respondido aos questionamentos enviados pela reportagem.
A ausência de resposta não permite concluir qual foi a finalidade dos investimentos nem afirmar, por si só, que houve irregularidade.
Os contatos foram realizados para permitir que os envolvidos esclarecessem a origem dos pagamentos, a finalidade dos anúncios, a relação dos conteúdos com as atividades profissionais dos autores e os procedimentos adotados pelo LinkedIn para a veiculação das campanhas.
Caso os envolvidos ou a plataforma se manifestem posteriormente, o Notícias Latinas poderá atualizar a matéria.
Uma nova fronteira da publicidade política
O caso chama atenção porque o debate eleitoral não está restrito às redes tradicionalmente associadas às campanhas políticas.
O LinkedIn é uma plataforma voltada principalmente ao ambiente profissional, mas seus próprios registros de publicidade mostram que conteúdos relacionados à atuação do governo também podem receber investimento para ampliar sua distribuição.
A questão central, portanto, não é se executivos ou empresas podem manifestar opiniões sobre o governo.
Podem.
A questão é outra: quando uma manifestação sobre a gestão de um governo, publicada durante um período eleitoral, recebe investimento financeiro para alcançar uma audiência maior, quais regras passam a ser aplicáveis?
No caso dos anúncios identificados em setembro, a resposta depende da análise conjunta de transparência, legislação eleitoral, regras de publicidade do LinkedIn e identificação de quem efetivamente financiou a distribuição dos conteúdos.
Segundo o MPF foram registradas mais de 54.000 denúncias de publicidade política irregular em 2026:

