Discurso de Lula na ONU, sem presença dos EUA
Lula ataca as bets, defende a soberania nacional e critica interferências externas nas eleições, em um discurso equilibrado na ONU que dialoga tanto com o cenário internacional quanto com seu momento eleitoral no Brasil.

Em sua décima participação na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, Luiz Inácio Lula da Silva combinou nesta terça-feira, em Nova York, a tradicional agenda internacional brasileira com temas que atravessam diretamente o cenário político do país às vésperas das eleições de outubro.
O discurso passou por multilateralismo, guerras, fome, pobreza e reforma do Conselho de Segurança da ONU, mas também teve um eixo bastante concreto: a defesa da soberania nacional e a rejeição à interferência estrangeira em processos eleitorais.
Sem citar nominalmente os Estados Unidos ou Donald Trump, Lula afirmou que o Brasil não aceita que outros países interfiram em suas decisões internas.
“Não somos quintal de ninguém.”
Em outro momento, o presidente afirmou:
“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.”
A fala ocorre em um contexto particularmente sensível para o governo brasileiro. A viagem de Lula acontece a apenas duas semanas das eleições e em meio a uma relação tensionada com Washington, marcada por tarifas comerciais e divergências sobre questões políticas brasileiras. Antes da ONU, Lula já havia afirmado que não queria interferência americana nas eleições brasileiras, defendendo que cada país respeitasse a soberania do outro.
O tema da soberania também apareceu associado ao combate ao crime organizado. Lula rejeitou a ideia de que o Brasil precise de uma intervenção militar estrangeira para enfrentar organizações criminosas.
“O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras.”
E completou:
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.”
A mensagem permite ao presidente responder simultaneamente a uma discussão internacional — o papel dos Estados Unidos no combate ao crime organizado na América Latina — e a um debate interno sobre segurança pública.
As bets e a defesa do Estado
A ofensiva de Lula contra as apostas online também passou a fazer parte desse momento político.
Nos últimos dias, o presidente intensificou as críticas às bets e afirmou que, pessoalmente, pretende acabar com esse mercado. Em um ato de campanha em Santa Catarina, no sábado (19), Lula declarou:
“As bets estão levando muita gente ao endividamento e quando a pessoa está endividada por jogo ela mente.”
Na mesma ocasião, foi ainda mais direto:
“Eu quero acabar com as bets.”
O tema não ficou restrito à campanha. Na segunda-feira, em Nova York, Lula discutiu com o presidente uruguaio Yamandú Orsi a experiência daquele país na regulamentação das apostas online. Segundo o próprio presidente brasileiro, ele manifestou interesse em conhecer o modelo uruguaio.
É uma diferença importante de abordagem. Enquanto nos palanques brasileiros o discurso sobre as bets assume um tom mais direto, na agenda internacional Lula apresentou a questão como parte de uma discussão sobre políticas públicas e regulamentação.
Um discurso para fora — e também para dentro
O equilíbrio talvez esteja justamente aí.
Lula precisava falar como chefe de Estado diante de uma plateia internacional, mas chega à ONU em um momento incomum: seu retorno ao Brasil está previsto logo depois do discurso para que ele retome a agenda eleitoral.
A imprensa brasileira já havia apontado essa tensão antes da viagem. O UOL descreveu a participação como uma tentativa de conciliar “o discurso de estadista com o de candidato”, enquanto análises anteriores destacavam que soberania, eleições e combate ao crime organizado seriam temas com potencial de conexão direta com a política brasileira.
O resultado foi um discurso em que Lula evitou transformar a tribuna da ONU em um palanque eleitoral convencional. Não fez um pedido de voto nem transformou seus adversários brasileiros no centro da fala.
Mas escolheu temas que possuem forte conexão com sua campanha: defesa da democracia, soberania, proteção dos mais pobres, combate ao crime organizado, crítica à desigualdade e rejeição à interferência estrangeira.
A estratégia também apareceu nos encontros realizados antes da Assembleia. Lula se reuniu com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e com o senador Bernie Sanders, além do presidente uruguaio Yamandú Orsi. Com Mamdani, falou sobre pobreza, custo de vida, políticas sociais e democracia. Com Orsi, discutiu integração latino-americana, comércio, infraestrutura e apostas online.
Soberania como fio condutor
O discurso desta terça-feira pode ser lido, portanto, em diferentes camadas.
Para o público internacional, Lula apresentou a tradicional defesa brasileira do multilateralismo e da reforma das instituições internacionais.
Para a América Latina, reforçou a ideia de que os países da região devem preservar autonomia política e não aceitar tutela externa.
Para o público brasileiro, o recado foi mais direto: eleições, democracia, segurança e soberania nacional.
E, no contexto eleitoral, a escolha das palavras também estabelece uma oposição política sem necessariamente mencionar adversários pelo nome. A ideia central apresentada por Lula é que decisões brasileiras devem ser tomadas pelos brasileiros.
Poucas semanas antes de uma eleição presidencial, essa mensagem tem evidentemente uma dimensão doméstica. Mas ela foi apresentada na ONU dentro de uma linguagem diplomática, evitando transformar formalmente o discurso de Estado em um discurso de campanha.
Essa talvez seja a característica mais marcante da fala de Lula em 2026: um discurso internacional que não abandona completamente o momento eleitoral brasileiro, mas procura encaixá-lo dentro de uma narrativa maior sobre soberania, democracia e o papel do Brasil no mundo.
*Chamou atenção a demora de Trump a entrar no plenário e também a ausência da delegação americana durante o discurso de Lula. Foi possível ver na transmissão ao vivo que que Marc Rubio e a primeira Dama dos Estados Unidos chegaram segundos antes de Trump adentrar a assembleia.
