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Copa do Mundo: o espetáculo para brancos, feito por pretos

O futebol é o maior espetáculo do mundo — construído nos pés de jogadores negros, consumido nas arquibancadas e nas telas por um público majoritariamente branco. A Copa do Mundo expõe, com clareza brutal, a contradição entre quem faz o show e quem lucra com ele.

Por Paulo Jesus
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Copa do Mundo: o espetáculo para brancos, feito por pretos

Existe uma cena que se repete a cada quatro anos e que ninguém parece querer nomear com todas as letras: o maior espetáculo esportivo do planeta é construído por corpos negros e consumido, em sua maior parte, por olhos brancos. A Copa do Mundo é isso. Um negócio bilionário erguido sobre o talento, a ginga e o suor de jogadores que, fora dos gramados, ainda precisam provar que merecem estar ali.

O futebol sempre foi um esporte de pretos. Não por acaso, não por coincidência — por história, por cultura, por necessidade. É nas periferias, nas várzeas, nos campos de terra batida que o jogo se reinventa a cada geração. São meninos negros que sonham com a bola como passaporte para uma vida diferente. E quando chegam ao topo, quando se tornam o espetáculo, o produto já pertence a outro.

Messi pode dar um solada e um adversário, reclamar com o árbitro, simular uma falt. Vinícius Júnior dança depois de marcar um gol e vira caso de polícia por ser chamado de “momo”. É punido pela alegria, pela exuberância, pela ousadia de ser ele mesmo num palco que não foi construído para ele. A habilidade é tolerada; a identidade, não.

No jogo de Quarta contra a Escócia, Vini tomou a frente, foi tocado, puxado, mas segundo o árbitro ele teria cometido falta e teve um gol histórico anulado, enquanto o argentino, sem intenção - acredito-, solou a perna de um futebolista árabe e não foi nem reprendido verbalmente.

Nas torcidas a diferença é ainda mais visível.

Olhe para a África do Sul na Copa de 2010. Um país com maioria negra, Os jogadores são negros. A torcida nos estádios? Majoritariamente branca, que podem pagar pelos ingressos. O Brasil, o Equador também apresentam esta discrepância.

A França é o exemplo mais didático dessa contradição. Sem os filhos e netos de imigrantes africanos, a seleção francesa não existiria como a conhecemos. Mbappé nasceu de pai camaronês e mãe argelina. Doucouré tem raízes no Mali. Koundé descende de família beninense. E antes deles, Zidane — filho de argelinos — foi o herói de 1998. A França campeã é africana. Mas a bandeira que tremula é azul, branca e vermelha.

Enquanto isso, os ingressos ficam mais caros a cada edição. O torcedor comum, aquele que acorda cedo, trabalha o dia todo e ainda arranja tempo para acompanhar o jogo no celular, foi expulso dos estádios há muito tempo. No lugar dele, entrou a propaganda de apostas esportivas em todo intervalo, em todo banner, em toda transmissão. O futebol virou plataforma de extração — de dinheiro, de sonhos, de identidade.

O que resta ao apaixonado de verdade é a esperança. A esperança de que o esporte um dia volte a ser do povo que o criou. E enquanto isso não acontece, ele assiste de longe — da arquibancada mais barata, da tela do celular, da calçada em frente ao bar — ao espetáculo que ajudou a construir, mas que nunca foi, de fato, seu.

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