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Por dentro da retórica dos outsiders - Renan e o Missão

A retórica de Renan Santos e do Partido Missão aposta no rótulo de outsider para confrontar tanto o petismo quanto o bolsonarismo, unindo o discurso ultraliberal na economia a pautas de impacto digital e confronto institucional.

Por Mateus Cunha
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Por dentro da retórica dos outsiders - Renan e o Missão

Já faz alguns meses que comecei a acompanhar de perto a candidatura de Renan Santos, líder do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidato à Presidência da República pelo recém fundado Missão. Não por simpatizar ou não com o candidato ou com as suas ideias. Afinal, como pesquisador, minhas preferências políticas são irrelevantes.

O que realmente me interessa, como alguém que dedicou boa parte da carreira ao estudo da comunicação política, é entender como esses e outros líderes se comunicam com a população.

A campanha de Renan me chamou a atenção porque reproduz, de forma bastante clara, uma das marcas da comunicação política contemporânea. Em livro ainda não lançado, caracterizei essa marca como “retórica da ruptura”: um conjunto de estratégias discursivas que produz uma ruptura simbólica com a política tradicional. É verdade que mesmo políticos de carreira, como o ex-presidente Jair Bolsonaro,acionaram elementos desse repertório discursivo se posicionando como representantes do "baixo clero" ou candidatos antissistema. Ainda assim, a retórica da ruptura se mostra de forma mais nítida quando articulada por pessoas com carreiras consolidadas fora da política.

Na última década, outsiders como o presidente estadunidense Donald Trump, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o presidente argentino Javier Milei chegaram ao topo da hierarquia política de seus países recorrendo a esse tipo de artifício. No Brasil, os caros leitores devem lembrar de casos como os do ex-governador de São Paulo João Doria, o atual governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e Pablo Marçal, que foi candidato a prefeito de
São Paulo em 2024.

Em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto em uma eleição polarizada, é natural que a candidatura de Renan Santos assuma o posicionamento de terceira via, o que significa que uma eventual chegada ao segundo turno depende da sua capacidade de se diferenciar dos seus adversários. Embora pertençam a diferentes lados do espectro político,
observe como eles são enquadrados pelo jovem candidato: “Eu não vou separar muito Flávio do Lula porque os dois fazem parte do mesmo sistema corrupto”.

A frase revela uma das condições fundamentais para o funcionamento da retórica da ruptura: os adversários precisam ser representados como parte de um mesmo sistema político disfuncional e imoral. Esquerda e direita se tornam diferenças secundárias diante da divisão considerada realmente importante: de um lado, o “sistema”; de outro, quem afirma combatê-
lo. Mas denunciar esse sistema não basta. O candidato também precisa convencer o eleitor de que ele próprio não faz parte dele.

Foi especialmente isso que me chamou a atenção em uma série de vídeos publicados
por Renan no Instagram. Neles, o pré-candidato percorre municípios com os piores índices de
desenvolvimento humano do país e expõe, com muita indignação, a sua precariedade. Mais
do que denunciar problemas sociais, esses vídeos constroem um contraste simbólico entre
uma caricatura do político tradicional, marcado pela distância dos problemas cotidianos da
população, e alguém disposto a percorrer estradas esburacadas, furar o pneu do carro e
experimentar parte das dificuldades enfrentadas pelos brasileiros mais pobres.

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Naturalmente, esse tipo de candidatura também possui vulnerabilidades. A principal
delas é a falta de experiência administrativa. Não por acaso, esse é um dos ataques mais
frequentes de seus adversários. No entanto, a própria inexperiência pode ser ressignificada.
Veja como Renan se antecipou a essa crítica em outro vídeo publicado no Instagram:


“E sobre não ter tido cargo ou experiência, eu não tenho experiência. Se a experiência hoje
é você pegar uma emenda e desviar pra comprar voto, eu não tenho essa experiência. Se a
experiência que os caras exigem é você fazer acordos com o bosta do presidente da Câmara,
eu não tenho essa experiência. Se é fazer um governo cooptando as pessoas, eu não tenho
experiência. Se é receber mensalinho, eu não tenho essa experiência”.



Do ponto de vista discursivo, trata-se de um movimento bastante interessante. A
crítica à falta de experiência deixa de ser um problema e passa a funcionar como prova de
integridade. Já a experiência deixa de significar competência administrativa para significar
familiaridade com práticas condenáveis. Ao mesmo tempo, o esquema argumentativo
obedece ao estigma de que políticos são tipicamente corruptos.
Independentemente do resultado das urnas, em um contexto marcado pela polarização
afetiva e pela crescente desconfiança na política, a retórica da ruptura é um recurso que
facilita a entrada de outsiders como Renan Santos na política. Se isso produz renovação real
ou apenas substitui velhos problemas por novos, é uma questão que não é simples de
responder e ultrapassa o propósito desta coluna.

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