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Opinião

Onde há mulheres para votar?

Mais de 52% do eleitorado brasileiro é formado por mulheres. Mas onde estão as mulheres nas urnas como candidatas?

•Por Renata Caleffi
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Onde há mulheres para votar?

A representação feminina na política brasileira não é recente, mas caminha a passos muito lentos, não refletindo em participação política em cargos públicos a porcentagem populacional do país. Em 2026, por exemplo, a parcela de mulheres no eleitorado ultrapassou os 52%. O direito ao voto para a fatia majoritária da população completará, em fevereiro de 2032, cem anos. No entanto, antes do direito efetivo ao voto, conquistado em 1932, a potiguar Alzira Soreano já tinha sido eleita a primeira prefeita brasileira em 1928, com mais de 60% dos votos – mesmo com o direito à participação política sendo instável e não para todas. Assim, pode-se afirmar que as mulheres já fazem parte do processo eleitoral há quase cem anos em terras tupiniquins: mas será mesmo?

Quase cem anos depois de Alzira, chegamos a mais uma eleição em que o número de candidaturas femininas não ultrapassa o dos homens, não chegando nem perto da equidade de gênero. A Justiça Eleitoral divulgou os dados sobre os registros de candidaturas e, para os cargos de Presidente, Vice-Presidente, Governador, Vice-Governador, Assembleias Legislativas Estaduais, Distrital e Federal e Senado, a totalidade de mulheres candidatas não chegou sequer nos 35%. Neste pleito, 7.165 mulheres são candidatas a um cargo eletivo (34,85%). O local onde elas mais estão inseridas é na disputa como vice-governadoras, com mais de 42% das candidaturas – e ainda assim não passa perto da equidade de gênero. No Brasil, a legislação exige que os partidos preencham o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais

Diante disso, onde elas menos aparecem? Neste ano, elas estão menos representadas na disputa para o cargo de presidente, em que os registros somam apenas 15,4%. Entre as quatro candidaturas para majoritária do governo federal que somam o maior percentual de votos nas pesquisas realizadas entre os meses de agosto e setembro, nenhuma candidata mulher (presidente ou vice-presidente) aparece. E não é por acaso, já que as duas candidatas mulheres para a presidência do Brasil são Samara Martins (UP) e Clariana Barão (DC), mas ambas não possuem tempo de televisão ou espaço na mídia para apresentar suas propostas, ou garantir mais visibilidade para a presença de mulheres nos espaços decisórios.

A realidade é semelhante nas disputas para governos estaduais. São apenas 16,4% de candidatas na majoritária, tendo seis estados sem nenhuma candidatura feminina registrada para o cargo de governadora (Amapá, Rondônia, Maranhão, Paraíba, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo). Dentre as candidatas, 12 são do partido UP, correspondendo a mais de 35% das candidaturas de todas as aspirantes a governadora. Chama a atenção ainda que, em nenhum dos estados, o referido partido conta com tempo de rádio ou televisão no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE).

A realidade é assustadora, mas repete os passos de outras eleições. Em 2022, apenas duas mulheres foram eleitas chefes de estado no Brasil: Raquel Lyra (PSD/Pernambuco) e Fátima Bezerra (PT/Rio Grande do Norte). Celina Leão, do PP do Distrito Federal, é a atual comandante, desde o afastamento do então governador, Ibaneis Rocha, no mês de março de 2026, para concorrer ao Senado. As três são as únicas governadoras em exercício no país atualmente. Bezerra, em 2026, não é candidata, e o Maranhão, governado por ela, não conta com candidatas mulheres. Já Lyra e Leão disputam o pleito em seus respectivos estados, ambas concorrendo com outras mulheres – mas nem todas com chances de avançar na disputa.

No legislativo a porcentagem é tão baixa quanto no executivo. Enquanto hoje o Brasil conta com 15 senadoras em exercício (18,5%), não necessariamente o número tende a aumentar, visto que oito encerram seus mandatos em 2026 – e isso significa que, para a porcentagem de mulheres crescer no país, é necessário que pelo menos nove mulheres sejam eleitas neste ano. No pleito atual, 70 candidatas mulheres disputam 54 cadeiras no Senado Federal, contra 248 candidatura de homens.

O que a pesquisa científica explica?

Há algum tempo, pesquisas sobre a presença de mulheres nas esferas de decisão estão presentes no cotidiano científico. Pesquisas de conclusão de curso, mestrado e doutorado, apresentação de trabalhos em congressos, artigos em revistas e discussões em portais de informação reverberam a necessidade de uma política mais inclusiva e, preferencialmente, com equidade de gênero.

Aos que não defendem essa paridade entre homens e mulheres na política, algumas das referências auxiliam a mudar de opinião. É o caso das pesquisas que enfatizam que a democratização efetiva exige a inclusão progressiva de diferentes grupos sociais no processo de tomada de decisão, indo além do simples ato de votar. Isso significa, em outras palavras, que a participação efetiva de grupos minoritários (nem sempre em números, mas em desvantagens estruturais) é uma necessidade constante para a efetivação dos processos democráticos, que precisam reverberar o que a sociedade é.

Nessa linha de pensamento, temos a pesquisadora Teresa Sacchet ressaltando que não é justo que uma fatia populacional, no caso do processo eleitoral a dos homens, dominem e monopolizem o poder, pois a ausência de mulheres indica uma discriminação estrutural. Ou seja, por mais que há quase cem anos a população feminina possa votar, o como votar ainda é negligenciado ou suprimido em favor de mecanismos de decisão que reforçam as violências simbólicas e a exclusão.

A presença de mulheres nos espaços de decisão é um dos meios mais eficazes para garantir que a necessidade de grupos, antes não atendidos, se efetive, pois há, junto com o crescimento da participação feminina, mais chances de pluralidade nas ideias e discussões. Sobre a ampliação no processo democrático, Krook (2011) mostra que o aumento na presença de mulheres no parlamento resulta em uma melhora na percepção de políticas públicas sobre a qualidade dos serviços públicos; na melhora da qualidade do funcionalismo público e sua independência política e; na melhora da qualidade na formulação, implementação e fiscalização de políticas públicas.

O que a teoria tem a ver com a prática?

O título deste artigo pergunta: onde há mulheres para votar? E a resposta, por mais que não seja a esperada, é que em muitos lugares ainda não há mulheres compondo chapas com chances e igualdade de recursos para vencer um pleito eleitoral.

Infelizmente, mesmo com o sistema de cotas e a redistribuição do fundo eleitoral com fatia destinada a mulheres, o Brasil segue a passos lentos rumo a uma efetiva equidade de gênero na política. E isso prejudica (e muito) o processo democrático como um todo: do município ao país.

Menos mulheres na política significa menos opções para a pluralidade e diversidade de ideias, ideais e políticas públicas. Há menos espaço para os embates e as discussões que levam o país a um lugar melhor do que está hoje. Com menos visibilidade, há menos eleitas, e isso por si só já é um atributo ruim para o país. Na média internacional, O Brasil tem um piores índices de paridade, estando em 130º entre 180 Estados (Observatório Nacional da Mulher na Política, 2026). Enquanto a América Latina conta com quase 36% de mulheres em parlamentos, nós nos deparamos com apenas 17%.

Nessas eleições, escolher votar em mulheres pode não ser possível - visto que alguns estados sequer apresentam candidaturas femininas para o governo -, e isto pode resultar em um Brasil que ainda lidera o lado ruim da fila dos países com pior equidade de gênero na política. Por outro lado, pode ser uma oportunidade de inverter a balança e, apesar de números baixos de candidaturas, resultar em mais eleitas. A decisão e o resultado dessa pergunta só estarão disponíveis no final do processo eleitoral. Até lá, apenas suposições, estatísticas, combinação de informações, campanha eleitoral e torcida.

Referências utilizadas

KROOK, Mona Lena. Representational Effects of Electoral Quotas. “Electoral Reform and Political Representation,”: Department of Political Science, Washington University in St. Louis, St. Louis, MO, March 25-26, 2011.

SACCHET, Teresa. Representação política, representação de grupos e política de cotas: perspectivas e contendas feministas. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 20, n. 2, p. 399-431, maio/ago. 2012.

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