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Opinião

O voto como consumo simbólico se insere no cotidiano do eleitor

Nas democracias contemporâneas, o voto vai além de uma escolha racional e se configura como prática de consumo simbólico. Em um cenário de forte polarização e influência das redes sociais, campanhas políticas funcionam como marcas que oferecem identidade, pertencimento e reconhecimento ao eleitor.

Por Ary Azevedo Jr
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O voto como consumo simbólico se insere no cotidiano do eleitor

Voto e identidade em tempos de eleições digitais


A compreensão do voto nas democracias contemporâneas exige ultrapassar modelos
estritamente racionalistas de decisão eleitoral e considerar a centralidade dos processos simbólicos que organizam a experiência política. Em contexto de polarização ideológica e afetiva, campanhas, partidos e candidaturas passam a operar como bens simbólicos ofertados a um eleitorado que busca, simultaneamente, orientação política, reconhecimento social e
confirmação identitária. Nessa chave, o voto deixa de ser entendido apenas como escolha programática e passa a ser concebido como prática de consumo simbólico, por meio da qual sujeitos aderem a signos, narrativas e marcas políticas que condensam valores, afetos e estilos
de vida.
Essa formulação dialoga com a ideia de que a cultura contemporânea do consumo se organiza como “cultura do narcisismo”, em que a subjetividade é atravessada por lógicas de autoexpressão, gratificação e visibilidade social (Lasch, 1983; Wanderley, 1999). Transposta para o campo político-eleitoral, essa lógica permite compreender campanhas e candidaturas como dispositivos de oferta identitária: mais do que portadoras de propostas, elas se
apresentam como superfícies de projeção simbólica às quais o eleitor pode aderir para afirmar quem é e a qual coletividade pretende integrar. Em outras palavras, o consumo eleitoral não se limita à recepção de mensagens persuasivas, mas envolve um processo de incorporação
simbólica pelo qual siglas, cores, slogans, biografias e performances de liderança passam a funcionar como marcadores de pertença e distinção (Rocha, 1995; Alahmar, 2019; Azevedo
Jr., 2021).

Narcisismo, autoverdade e reconhecimento político


O argumento se fortalece quando articulado à cultura do narcisismo e às dinâmicas contemporâneas de autoverdade e reconhecimento. Em sociedades intensamente midiatizadas, o eu tende a ser construído como projeto permanente de exposição, validação e curadoria de si (Lasch, 1983; Wanderley, 1999). Tal movimento desloca a relação com a
política: em vez de se orientar prioritariamente pela ponderação entre alternativas de governo, parte do eleitorado passa a buscar candidaturas que espelham sua autoimagem moral, emocional e cultural. O voto, nesse sentido, converte-se em gesto de auto expressão pública,
aproximando-se de práticas de consumo pelas quais indivíduos selecionam marcas capazes de comunicar pertencimento, diferenciação e prestígio simbólico (Seco, 2021; Azevedo Jr., 2021). Cotidianamente é possível verificar essa cultura narcísica quando nos deparamos com a dinâmica das redes sociais, em que o parecer torna-se mais relevante que o ser,
constituindo-se como projeção idealizada do self (eu subjetivo), seja no desenvolvimento de nossa persona digital, seja na identificação com produtos mercadológicos, seja no posicionamento político.
Esse processo é intensificado por ambientes digitais que reforçam o viés de confirmação e organizam a circulação de conteúdos por filtros-bolha (Espíndola, 2024). Nessas condições, crenças pessoais e percepções subjetivas tendem a adquirir estatuto de verdade autorreferente, validada menos por critérios de comprovação empírica do que por sua aderência afetiva ao universo do sujeito, em um regime de autoverdade.
No plano eleitoral, isso significa que campanhas eficazes não operam apenas pela apresentação de argumentos, mas pela capacidade de confirmar disposições prévias, dramatizar antagonismos e oferecer ao eleitor uma narrativa em que ele se reconheça como protagonista moral de uma comunidade imaginada (Beraldo, 2017; Azevedo Jr., 2025). A adesão a uma candidatura passa, então, a depender da compatibilidade entre marca política e autoimagem do eleitor.


Voto, identidade e democracia em uma mesma fórmula


Compreender o voto como consumo simbólico não significa negar a existência de interesses materiais, disputas programáticas ou clivagens ideológicas substantivas. Significa, antes, reconhecer que, nas democracias midiatizadas, tais dimensões são crescentemente processadas por linguagens publicitárias, dispositivos algorítmicos e performances identitárias que reorganizam a relação entre eleitores, partidos e esfera pública (Rubim, 2004;
Bianco et al., 2018; Azevedo Jr., 2025). O voto passa a condensar, ao mesmo tempo, escolha política, investimento afetivo e declaração identitária.
Essa inflexão tem consequências relevantes para a democracia. Quando a adesão eleitoral se ancora prioritariamente em narrativas marcárias e em mecanismos de autoafirmação, cresce o risco de solidificação das identidades políticas, intensificação das polarizações e enfraquecimento das mediações reflexivas necessárias ao dissenso democrático (Henud; Ferreira, 2025; Basilio, 2026). Em vez de simples juízo sobre governos e propostas, o voto
transforma-se em performance pública de si diante de audiências humanas e algorítmicas, articulando consumo simbólico, cultura do narcisismo e espetacularização da política (Beraldo, 2017; Rubim, 2004; Seco, 2021).
Em síntese, a identidade político-partidária pode ser entendida como uma espécie de self ideológica: uma imagem sintetizada de valores, afetos e pertenças que o sujeito produz e compartilha ao se vincular a determinadas marcas políticas, construindo sua identidade social numa perspectiva de projeção marcária de si para o mundo.

Ao evidenciar o voto como gesto de pertencimento em democracias midiatizadas, o desafio contemporâneo não é apenas garantir a liberdade de escolha, mas qualificar simbolicamente o que está sendo escolhido. Isso significa disputá-lo não apenas no terreno das emoções e das marcas, mas também no da densidade informativa, da pluralidade de perspectivas e da
revalorização do dissenso como componente constitutivo da vida democrática.
Em um ambiente em que identidades político-partidárias tendem a cristalizar-se como selves e selfies ideológicas, o horizonte que se coloca é o de construir condições para que o eleitor possa continuar dizendo quem é pelo voto, sem que isso implique renunciar à complexidade dos problemas públicos nem à possibilidade de revisitar, criticamente, suas próprias certezas.


Enfim


A selfie é aquela tentativa heroica de fazer o self caber numa imagem em 9:16, com filtro “natural” e legenda profunda desenvolvida em alguma ferramenta de IA. A identidade, lenta, contraditória e cheia de zonas cinzentas, precisa se virar para virar imagem nítida, com boa luz, sem olheira e, de preferência, com um fundo instagramável que diga ao mundo que, além de sujeito político, você também frequenta cafés descolados e manifestações representativas. A selfie, nesse jogo, funciona como o banner portátil do eu: enquadra, alisa, recorta e exporta uma versão exportável de si, pronta para consumo simbólico nas timelines, em que seguidores e algoritmos distribuem porções de reconhecimento em forma de corações, joinhas e comentários genéricos de “perfeita!”, “icônico!” e “me representa”. A ironia é que, à medida que multiplicamos selfies, corremos o risco de deixar o self em modo avião: quanto mais performamos imagens identitárias, mais difícil encarar a complexidade que não cabe no enquadramento, nem no slogan, nem no número de caracteres da legenda engajada. Na política, isso rende maravilhas duvidosas: transformamos programas de governo em filtros, lideranças em influenciadores e o próprio voto em uma espécie de selfie ideológica, cuidadosamente editada para dizer “olha quem eu sou” sem precisar enfrentar a parte chata da democracia, que é lidar com conflito, ambivalência e revisão de certezas.

No fim, talvez a pergunta não seja quantas selfies produzimos do nosso self, mas quanto de self ainda sobrevive depois de tantas tentativas de parecer perfeito diante da câmera. Inclusive, da câmera das urnas, que resultará em quatros anos de disputas entre o parecer-fazer instagramável da comunicação política e o fazer das práticas públicas que vão gerir a cidade, estado ou país por quatro anos e resultarão em mais (ou menos) qualidade de vida para os cidadãos. Ou seja, em mais ser e menos parecer.



Referências bibliográficas


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políticos nas campanhas eleitorais contemporâneas. 42º Congresso Brasileiro de Ciências da
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