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Opinião

Graças a Deus nasci latino-americano

Uma gratidão irônica e consciente por ter nascido neste continente de contradições profundas — onde o maior genocídio da história foi apagado, onde a arte se uberiza e o futuro se fecha em distopias.

Por Paulo Jesus
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Graças a Deus nasci latino-americano

Graças a Deus nasci latino-americano. Digo isso com toda a ironia que a frase merece e, ao mesmo tempo, com uma gratidão que não consigo explicar direito. Nasci neste continente partido ao meio, construído sobre ossos que ninguém quer contar, regado a sangue que virou folclore. Nasci aqui e, estranhamente, não trocaria. Mas preciso ser honesto sobre o que significa pertencer a este lugar — porque fingir que é simples seria uma mentira bonita demais para ser útil.

A América Latina foi apostada, como num jogo de Bet, antes mesmo de saber que existia. Fomos o Job das nações — sofremos tudo, perdemos tudo, e ainda assim nos pedem fé. Viramos Facção: organizados por fora, controlados por dentro, com uma hierarquia que não escolhemos e da qual é quase impossível sair. A interferência americana não foi só política ou militar — foi cultural, econômica, psicológica. Aprendemos a desejar o que eles produzem, a nos envergonhar do que somos, a chamar de progresso o que é apenas dependência com outro nome.

Antes de tudo isso, antes da colônia e do capital, havia povos. Civilizações inteiras com astronomia, medicina, arquitetura, filosofia — apagadas no que talvez seja o maior genocídio da história humana. Não foi guerra. Foi extermínio sistemático, seguido de silêncio sistemático. Os povos indígenas são a fundação deste continente, e nós construímos em cima deles sem nem olhar para baixo. Carregamos essa dívida no DNA e fingimos que ela não existe. Mas ela existe. Ela sangra.

Olho para o futuro e vejo névoa. Não uma névoa poética — uma névoa de distopias possíveis, cada uma mais plausível que a anterior. Autoritarismo com estética pop. Democracia de fachada com vigilância total. Colapso climático administrado por algoritmo. Fome com entrega em domicílio. Escolha a sua. Ou melhor: não escolha, porque provavelmente não vai poder.

Enquanto isso, tudo se uberiza. O trabalho, o afeto, a moradia, o transporte — e agora a arte. O Spotify transformou música em commodity de streaming, pagando frações de centavo por obra, enquanto o artista sorri para a câmera e agradece o alcance. Um colega meu de faculdade, o Arvro, disse outro dia, “sem ironia”: 'sou videomaker de aplicativo'. Ele disse isso como quem apresenta o currículo. Quando foi que chegamos aqui, quando a precarização virou nossa identidade. Nem vimos, somente sentimos.

No Brasil, a luta pela abolição da escala 6x1 virou pauta. E a resposta de Moro e Nicolas foi propor 52 horas semanais ou o contrato livre, como se liberdade fosse trabalhar mais sem garantia nenhuma. Resquício de escravidão?
Não sei se é resquício. Às vezes parece continuação com outro contrato. A exploração do corpo negro e pobre nunca foi abolida de verdade, não é? Foi apenas formalizada, burocratizada, tornada legal.

A educação, que deveria ser o caminho, está sob ataque constante. Cortes, desvalorização do professor, currículo esvaziado, universidade pública ameaçada. O projeto fosse mesmo esse: manter as pessoas sem ferramentas para pensar, evoluir,… Porque quem pensa, questiona. E quem questiona, incomoda.

Eu mesmo sinto que ultrapassei meu apogeu. Não sei exatamente quando aconteceu. Gradual, como a maioria das perdas. Estou em plena uberização em direção ao chão: projetos menores, salários menores, menos espaço, menos tempo, mais ansiedade. Não é vitimismo; é diagnóstico. E o diagnóstico dói mais quando você olha para os seus sobrinhos, para o seu filho, e percebe que a mobilidade social que você ainda sonhou alcançar está cada vez mais distante para eles. O elevador social não quebrou — foi desmontado peça por peça.

A Amazônia, que deveria ser nossa maior riqueza e nossa maior responsabilidade, não resiste ao garimpo. Não resiste ao agronegócio. Não resiste à ganância que tem nome, endereço e financiamento. Cada árvore que cai leva junto um pouco da possibilidade de futuro. E nós assistimos, indignados no celular, enquanto o algoritmo já preparou o próximo vídeo.

Mas aqui está o ponto onde me recuso a parar. O Vatto — um dos fundadores do latinofuturismo, movimento do qual me orgulho profundamente — me disse uma vez que não adianta ser só reativo. A periferia, os povos originários, os artistas precários, todos nós precisamos ser propositivos. Precisamos construir utopias, não apenas denunciar distopias. E ele tem razão. Porque a crítica sem proposta é só lamento bem articulado. É reatividade.

Então, graças a Deus nasci latino-americano. Porque é daqui que precisa vir a resposta. Não uma cópia do modelo europeu, não uma versão tropical do sonho americano. Algo nosso, que nasce da nossa diversidade, das nossas línguas, das nossas veias abertas e da nossa teimosia em continuar existindo.

Utopias latinas. Que sejam nossas. Que sejam reais o suficiente para brigar por elas e impossíveis o suficiente para valer a pena.

Em 10 anos, ou menos, se não ganharmos da maneira que fizemos até agora, contem comigo.

"¡Hasta la vitória siempre!" ;)

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