Debate da Band rendeu o que? Lacuna discursiva e holofote para números vazios
Artigo analisa o debate da Band entre Lula e Flávio Bolsonaro e mostra os limites da contagem de palavras para compreender o discurso político.

Ladrão, miliciano, malandro, corrupto. As acusações vieram dos dois lados no primeiro debate do segundo turno da eleição presidencial, entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), organizado pela TV Bandeirantes, popularmente Band, no dia 18 de outubro, uma semana antes da votação, que acontece em 25 de outubro. A audiência sentou no sofá para saber sobre propostas, mas assistiu, com o perdão do clichê, a um show de horrores.
Lula aparentava um cansaço que não se viu nos debates de 2022, o que se refletiu em momentos de desatenção e falta de paciência com o adversário. Flávio apostou na encenação: se posicionava atrás de Lula enquanto ele falava e balançava a cabeça em negativa, indicando à audiência como a fala do adversário deveria ser interpretada. A estratégia do candidato da extrema direita rendeu uma enxurrada de memes nas redes sociais. Mas é esse o propósito de um debate entre candidatos a um cargo público em um contexto de democracia representativa? Gerar material engraçado para as mídias sociais?
O problema de contar menções
Alguns analistas mais críticos trouxeram esses pontos para discussão, mas o que mais chama atenção sobre algumas leituras sobre o debate da Band, e de outros eventos midiáticos com participação dos dois candidatos, é o forte embasamento em contagens de nomeações: quantas vezes Flávio citou o pai, quantas vezes Lula citou Jair. Antes do fatídico debate da Band, já se contavam as menções que Flávio fez de Lula e vice-versa nas entrevistas do Jornal Nacional, por exemplo.
O problema das contagens é tratar um debate ou uma entrevista como um momento que começa e termina ali. Quando, na verdade, essas situações articulam dezenas, centenas de acontecimentos anteriores. Como afirma o teórico político Ernesto Laclau, a partir de Freud, tais momentos são sobre determinados, ou seja, carregam uma série de elementos que precisam ser articulados para fazer sentido. Isso quer dizer, ir além da simples contagem de nomeações.
Transformar em notícia central o fato de Lula não citar o nome do adversário durante uma entrevista é ignorar um padrão retórico de Lula que não surgiu nessa eleição. Em 2022, no seu retorno à disputa eleitoral, ele costumava dizer que não fala nome de adversário. Assim, não tem novidade o que aconteceu na sabatina do JN, quando Lula não citou o nome de Flávio nenhuma vez. Mas teve mídia que fez esse detalhe um destaque.
A construção da identidade pela oposição
Na mesma sabatina, Flávio recorreu ao nome de Lula quando se viu diante de perguntas incômodas. Isso é retórica conhecida. Qualquer ser humano que se vê sem argumentos que sustentem uma resposta que projete uma imagem positiva de si ataca o adversário. Isso tem a ver com a forma como nos constituímos. Na teoria do discurso de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, nenhuma identidade se basta: ela ganha contorno na diferença com outras. Sem um projeto próprio para sustentar suas respostas, Flávio se definiu pela oposição a Lula.
Mas ainda sobre o debate de domingo passado, Jair Bolsonaro esteve presente muito mais do que os números mostram, mesmo sem ser nomeado com frequência. Estava na agenda, na presença do seu filho, na menção ao bolsonarismo, e até no pronome "eles" quando Lula disse: "eles tiveram uma experiência de quatro anos", ao criticar a resposta de Flávio sobre saúde pública.
O que os números não mostram
Contar palavras mede o que foi dito e até pode ser um ponto de entrada para uma conversa mais profunda. Eu mesma usei esse recurso no artigo Fear and Hope: Psychoanalyzing the Brazilian Electoral Campaign 2022, publicado em 2025 no periódico Psychoanalysis, Culture & Society, partindo das nuvens de palavras dos programas eleitorais de Lula e Bolsonaro em 2022. No entanto, a contagem entrega pouco quando se ignoram as articulações. Retomando novamente Freud, o psicanalista já observava, em “A interpretação dos sonhos”, que o que mais importa num sonho costuma aparecer disfarçado, deslocado para um detalhe que parece sem importância. Assim como um sonho, um debate é uma construção discursiva. Ambos produzem sentido na articulação e no deslizamento dos significantes, sejam eles repetição de palavras, menções ao adversário, posicionamento de corpo ou omissão de temas, para citar algumas estratégias.
No debate da Band, Jair esteve em cena a noite inteira mesmo quando não foi nomeado. Aquele debate foi muito além de citar o nome de Jair Bolsonaro. Aquilo foi uma afronta à inteligência do povo brasileiro, dos dois lados. Nos primeiros blocos, sobraram acusações e praticamente não houve apresentação de propostas. As análises, sejam elas midiáticas, jornalísticas ou acadêmicas, precisavam evidenciar essa desconstrução do debate público para além da contagem de nomeações.
Um debate transformado em espetáculo
O caos no debate de domingo foi tão grande que gerou uma nota pública da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), questionando "a fragilidade das regras" daquele espetáculo e criticando "encenações destinadas à produção de cortes para as redes sociais". Material que os dois candidatos entregaram aos montes.
Números indicam para onde devemos direcionar o olhar. Daí em diante, o trabalho é transformar aquela palavra pesquisada em significante, ou seja, construir a teia de relações na qual ela se conecta: com quem ela se conecta, como ela se conecta, por que ela foi usada e não outra em seu lugar?
Referências
FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS (FENAJ). Debate eleitoral não é espetáculo. Jornalismo exige compromisso com a verdade e a democracia! Nota oficial. Brasília, 19 out. 2026.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. (Obras completas, v. 4).
LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemony and socialist strategy: towards a radical democratic politics. 2. ed. London: Verso, 2001.
MONTEIRO, Bianca A. L. Fear and hope: psychoanalyzing the Brazilian electoral campaign 2022. Psychoanalysis, Culture & Society, 2025. DOI: https://doi.org/10.1057/s41282-025-00547-8.
