Como Flávio ajudou Lula a se reeleger e fazer história?
Afonso Verner analisa como a postura de Flávio Bolsonaro nos debates, as articulações políticas e o discurso de aliados contribuíram para a virada de Lula em 2026.

A frase “nunca antes na história deste país” faz parte do léxico de Luís Inácio Lula da Silva (PT) e ele próprio agora pode atribuir à ela um novo sentido: “nunca antes na história deste país” um candidato perdeu no 1º turno e conseguiu a virada no 2º. Por isso, esse texto reflete como o retirante nordestino, que já foi presidente com altos índices de aprovação e chegou a ficar preso suspeito de corrupção, conseguiu um feito eleitoral e político histórico.
Antes de iniciar esta avaliação científica, cabe destacar que o primeiro turno do pleito teve uma característica peculiar: pouco se falou sobre propostas de políticas públicas ou agendas de campanha, mas muito se discutiu sobre o Caso Master, envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, e os variados problemas envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). Desta forma, Flávio Bolsonaro (PL) avançou para a segunda fase da eleição com uma vantagem expressiva (47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula).
Dito isso, foi na segunda etapa da eleição que algumas características mais intrínsecas a cada candidatura figuraram de forma mais evidente no debate. Foi no 2º turno, por exemplo, que a ligação do presidenciável do PL com as milícias cariocas acabou ficando sob evidência, assim como o fato dele ter defendido (pro bono) um policial acusado de assassinar uma menina de 5 anos de idade com tiro de fuzil.
Da mesma forma, foi também durante a segunda fase do pleito que a campanha de Flávio buscou ampliar o entendimento sobre a diminuição do valor de compra dos brasileiros, assim como explorar as contradições de Lula sobre o escândalo do INSS, especialmente a partir de um depoimento da lobista Roberta Luchisinger, concedido na última semana de campanha.
Mas, se observarmos apenas as campanhas negativas desempenhadas por cada candidatura, a explicação para o fenômeno político-eleitoral seria parcial, talvez até insuficiente. Me parece que parte do sucesso de Lula é explicado, também, pelo próprio fracasso de Flávio - além da guerra de rejeições entre os adversários, houve ações do próprio candidato do PL que nos ajudaram a refletir a virada inédita na história da Nova República brasileira.
Cabe destacar que os dois candidatos ampliaram suas votações entre os dois turnos - Flávio somou 3,7 milhões de votos a mais, enquanto Lula teve 10,4 milhões a mais na segunda fase da eleição. Ou seja: ambos aumentaram suas votações,
mas em escalas bastante distintas. Ao meu ver, houve ao menos três erros crassos da campanha bolsonarista que contribuíram para que as estratégias de Lula fizessem sucesso.
O primeiro erro: o comportamento nos debates
O primeiro deles diz respeito à forma como Flávio se comportou nos debates de 2º turno, especialmente no que foi realizado pela Band, mas também no debate final, na Globo. No primeiro, sob os auspícios de Pablo Marçal, o filho 01 de Jair buscou agir com bullying e, por mais que tenha animado a bolha, causou estranheza entre os eleitores moderados (aqueles que realmente definiriam o pleito).
Já no segundo debate, realizado na sexta-feira (23), na Rede Globo, podemos avaliar agora a sua importância histórica. Flávio cometeu menos deslizes, mas, quando os cometeu, tiveram tamanha gravidade que o saldo final foi desastroso para este candidatoo. Ao chamar Lula de “9 dedos”, ao zombar da voz de um senhor de 80 anos (fruto de um câncer de laringe) e ao falar do Nordeste a partir da ótica da “gorjeta” (ou esmola), Flávio soou desrespeitoso e os grupos focais mostravam que os mais experientes haviam ficado profundamente incomodados com a postura do presidenciável.
O segundo erro: agir como se estivesse eleito
O segundo erro grave da campanha de Flávio foi agir, já ao final do 1º turno, como se estivesse eleito. Ao cogitar ministros e até os próximos presidentes da Câmara e do Senado, Flávio ‘empurrou’ Hugo Motta (Republicanos) e Davi Alcolumbre (União) para Lula. Com os chefes da Câmara e Senado, respectivamente, ao seu lado, Lula conseguiu emplacar suas pautas e obrigou Flávio a falar (e votar a favor) do fim da Escala 6x1, por exemplo.
O terceiro erro: não conter a radicalização
Por fim, Flávio falhou ao conter membros da sua equipe ou da base apoiadora que davam claros sinais de radicalização - como a assessora econômica Daniella Marques e suas falas sobre substituição de servidores por IA ou de cortes em programas econômicos. Com isso, o terceiro e derradeiro erro do candidato do PL foi transparecer extremista quando deveria ter migrado ao Centro, em uma versão mais soft do Bolsonarismo (aquela tão sonhada na figura de Tarcísio de Freitas).
Como os erros favoreceram a campanha de Lula
Quando somamos estes três equívocos e seus efeitos (sem falar do vídeo de Nicolas Ferreira sobre o Nordeste e seu desdobramentos trágicos para a campanha de Flávio), notamos que o esforço de engajamento da campanha petista, centrado no canal Exército do Lula, passou a ter um terreno fértil para “virar voto” - foi como se as pessoas passassem a ter motivos para ouvir, o que antes parecia ser a principal dificuldade.
É claro: por ser um evento histórico e ainda repleto de avaliações e significados, a virada de 2026 será amplamente estudada pela ótica da Ciência Política, da Comunicação e de outros campos do saber. O que buscamos aqui foi, ainda no calor dos acontecimentos, concatenar acontecimentos que juntos podem ajudar a pintar um quadro do que foi a eleição de 2026.
